RESISTÊNCIA EM PIQUIÁ DE BAIXO

Piquiá da Conquista

Piquiá da Conquista: Um exemplo de planejamento com participação popular

Açailândia, janeiro de 2025 – O bairro Piquiá da Conquista, fruto do reassentamento da comunidade de Piquiá de Baixo, já se consolida como um símbolo de transformação urbana e social em Açailândia. As 312 casas, assim como toda a infraestrutura urbana, foram finalizadas e entregues pela Caixa Econômica Federal em novembro de 2024. O bairro dispõe de rede elétrica, iluminação pública, abastecimento de água, pavimentação em bloquete, drenagem de águas pluviais e fossas sépticas individuais, formando uma estrutura completa e funcional para os novos moradores.

Centro Comunitário e casas ao redor em Piquiá da Conquista, registrada em 2022
Centro Comunitário e casas ao redor em Piquiá da Conquista, registrada em 2022Foto: José Carlos Almeida
Vista de Piquiá da Conquista, registrada em 2024 — Imagens: José Carlos Almeida.

Das cinco obras de equipamentos públicos previstas, três já estão prontas: a Unidade Básica de Saúde (UBS), o mercado municipal e a quadra poliesportiva coberta. A praça, com previsão de conclusão para fevereiro de 2025, e a escola que atenderá desde a creche até o ensino médio, com entrega esperada para março de 2025, seguem em andamento. Segundo o engenheiro Flávio Schimdt, coordenador da obra, esses espaços são essenciais para a integração e qualidade de vida da comunidade.

Planta do terreno de Piquiá da Conquista
Planta do terreno de Piquiá da ConquistaFonte: Flávio Schimdt

“É um bairro completo e planejado para oferecer conforto, dignidade e oportunidades. A presença de equipamentos públicos como a UBS e a escola é essencial para criar um ambiente de convivência e desenvolvimento,” afirmou Schimdt.

Participação popular como base do projeto

Uma característica marcante do Piquiá da Conquista é que tanto o projeto das casas quanto o planejamento urbano foram elaborados com a participação ativa dos moradores, em uma dinâmica popular e comunitária coordenada pela equipe técnica da Usina CTAH (Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado)e com a presença da Associação Comunitária dos Moradores de Pequiá (ACMP).

“A dimensão e divisão dos cômodos nas casas, o posicionamento dos equipamentos públicos e as áreas comuns do bairro foram definidos a partir das opiniões e percepções dos próprios moradores. Isso faz toda a diferença, porque o bairro reflete as reais necessidades da comunidade,” destacou o engenheiro.

Além disso, a infraestrutura do bairro é um diferencial em um município que possui baixo índice de drenagem pluvial e rede de esgoto. A garantia dessas infraestruturas básicas, aliada à pavimentação das vias em bloquete, calçadas adequadas, ciclovias e várias pequenas praças distribuídas pelo bairro, proporciona não apenas funcionalidade, mas também espaços de lazer e convivência para os moradores.

Votação para escolha dos acabamentos das casas em Piquiá da Conquista (2023). Foto: José Carlos Almeida
Votação para escolha dos acabamentos das casas em Piquiá da Conquista (2023). Foto: José Carlos Almeida
Votação para escolha dos nomes das ruas em Piquiá da Conquista (2023). Foto: José Carlos Almeida
Votação para escolha dos nomes das ruas em Piquiá da Conquista (2023). Foto: José Carlos Almeida

“Piquiá da Conquista não tem comparação com o antigo bairro. As condições de vida foram transformadas. Temos áreas verdes, iluminação pública, espaços para pedestres, e uma infraestrutura sólida. É um ambiente que promove qualidade de vida e integra as pessoas,” enfatizou Flávio Schimdt.

Desafios ambientais e medidas sustentáveis

João Paulo Alves, gestor ambiental, educador popular na Justiça nos Trilhos (JnT) e vigilante popular no Coletivo Edvard Dantas, destaca a importância de considerar os impactos ambientais no projeto de reassentamento.

“O Piquiá da Conquista foi pensado para ser uma área menos vulnerável a riscos ambientais, com infraestrutura básica adequada. No entanto, ainda enfrentamos desafios, como a drenagem da água e a necessidade urgente de arborização para reduzir a temperatura e melhorar a qualidade de vida,” explica.

Ele também reforça a necessidade de medidas adicionais para preservação ambiental e melhoria sustentável no bairro.

“É essencial implementar um programa de educação ambiental e patrimonial para que os moradores possam cuidar melhor dos espaços coletivos e das áreas verdes. Além disso, é preciso continuar cobrando a prefeitura para que a drenagem no bairro vizinho, Novo Horizonte, seja concluída. A arborização com espécies nativas, a criação de hortas comunitárias e a vigilância popular em saúde são ações fundamentais para garantir a qualidade do ar e da água, evitando que os erros do passado se repitam,” afirma.

Legado de transformação e dignidade

Sobre a drenagem no bairro Novo Horizonte, que também impacta na qualidade de vida da região, o engenheiro Flávio Schimdt explicou que, após muitas tratativas e pressões, a Vale assumiu o compromisso de financiar os materiais necessários para a execução da obra. Já a prefeitura ficou responsável pela execução, conforme acordo firmado em um termo de cooperação entre as partes.

João Paulo Alves ressalta que o reassentamento de Piquiá de Baixo para o Piquiá da Conquista é um marco na luta por justiça ambiental e urbana. “Este processo não é apenas sobre mudar de lugar, mas sobre construir um futuro digno e sustentável para as famílias que sofreram por anos com os impactos da mineração e da siderurgia. A participação popular foi essencial para garantir que o novo bairro refletisse as reais necessidades da comunidade,” destaca.

Ele também celebra a conclusão das 312 casas e da infraestrutura urbana, além dos equipamentos públicos. “A praça e a escola, que estão em fase final de construção, serão espaços importantes para a integração e o desenvolvimento da comunidade,” conclui.

Flávio durante assembleia de moradores em Piquiá de Baixo (2023)
Flávio durante assembleia de moradores em Piquiá de Baixo (2023)Foto: José Carlos Almeida
Flávio durante assembleia de moradores em Piquiá da Conquista (2023)
Flávio durante assembleia de moradores em Piquiá da Conquista (2023)Foto: José Carlos Almeida

Por fim, Schimdt destacou o legado que o Piquiá da Conquista deixa para Açailândia:

“Este bairro é um exemplo de como planejamento urbano, participação popular e infraestrutura de qualidade podem transformar vidas. Não se trata apenas de casas ou ruas, mas de construir dignidade e futuro para quem vive aqui.”

A voz dos moradores: Ana Maria, artesã e moradora do Piquiá da Conquista

Ana Maria, artesã e uma das moradoras reassentadas, compartilha sua experiência e expectativas após a mudança para o novo bairro. Em entrevista, ela relata a emoção de receber as chaves da nova casa e a adaptação à nova vida no Piquiá da Conquista.

“Assim foi a expectativa muito grande quando a gente para receber a chave, quando eu recebi a chave, aí deu assim aquela alegria tão grande por dentro, aquela emoção da gente ter uma moradia digna, longe da poluição”, conta Ana Maria, visivelmente emocionada.

Ana Maria nos recebe e mostra sua casa nova no reassentamento Piquiá da Conquista, 2024. Vídeo: José Carlos Almeida.

Ela descreve o processo de mudança como uma experiência intensa, marcada por desafios burocráticos, como a demora na ligação de energia, mas também por uma sensação de liberdade e paz que o novo bairro proporciona. “Aqui a gente se sente livre, respirando ar puro, olhando a paisagem. Antes, a gente se sentia num buraco, coberto de fumaça e poluição. Agora, é uma maravilha chegar em casa e ter aquela paz, aquela tranquilidade.”

Ana Maria também destaca as melhorias na infraestrutura do bairro, como a pavimentação adequada e a qualidade da água, que contrastam com as condições precárias de Piquiá de Baixo. “Lá, a água vinha com terra, e muitas pessoas tinham problemas de rins por causa disso. Aqui, a água é de qualidade, e isso já faz uma grande diferença.”

Apesar da saudade do rio onde costumava banhar-se, Ana Maria celebra a nova vida no Piquiá da Conquista. “Aqui é bem melhor. É uma vitória, uma batalha vencida depois de muitos anos de luta. Ainda há desafios, mas estamos felizes e gratos por esse novo começo.”

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