A comunidade de Piquiá, em Açailândia (MA), tem sido palco de uma história marcada pela luta por direitos, resistência às adversidades e organização popular. Diante dos desafios impostos pela poluição industrial e pela necessidade de reassentamento, diversos coletivos, associações e grupos comunitários surgiram, fortalecendo laços de solidariedade e garantindo conquistas fundamentais para os moradores.
A seguir, são apresentados alguns dos principais espaços de resistência que têm desempenhado um papel essencial na construção de um futuro melhor para Piquiá. Cada um desses grupos carrega uma história de luta e perseverança, contribuindo para a defesa dos direitos da comunidade e a melhoria da qualidade de vida dos moradores.
Fundada em 7 de julho de 1989, a Associação Comunitária dos Moradores do Piquiá (ACMP) iniciou sua trajetória com Raimundo Nonato Silva de Souza como presidente e José Henrique Moreira Menezes como secretário. Desde então, tem sido um ponto central na defesa dos interesses da comunidade.
Em 2005, sob a liderança de Edvard Dantas Cardeal, conhecido como seu Edvar, a associação mudou sua estratégia. Uma carta foi enviada ao então presidente Luís Inácio Lula da Silva, relatando as dificuldades enfrentadas pela comunidade diante das indústrias poluidoras e solicitando ação do poder público. Além disso, fortaleceu laços com outras organizações, incluindo o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos e a igreja católica, a paróquia Santa Luzia, comandada pelos combonianos nordeste.
Ao longo dos anos, a luta travada pela ACMP ganhou corpo e se tornou fundamental. Hoje, sob o comando de Francisca Sousa Silva, carinhosamente conhecida como dona Tida, a associação continua a desempenhar um papel crucial na defesa dos direitos e na melhoria das condições de vida da comunidade.
Dona Tida destaca: “Essa luta é nossa, essa luta é do povo, é com justiça que se faz o bairro novo. Nossa luta é árdua, mas nossa comunidade é forte. Juntos, continuaremos a lutar por um Piquiá melhor para todos nós.”
Fundado em 03 de abril de 1982, o Clube de Mães de Piquiá demonstrou resiliência em seus esforços. Iniciado com o propósito de auxiliar mães carentes, idosos, crianças e atender outras demandas da comunidade, o clube conseguiu conquistas significativas, como a distribuição de cestas básicas e a instalação de um poço artesiano.
Além disso, foram oferecidos cursos e orientações às famílias. Atualmente, a entidade é reconhecida pela Lei Municipal 388/2012, contando com uma sede própria no bairro e um poço artesiano, ambos adquiridos por meio de doações. Paralelamente à ACMP, o Clube de Mães também estabeleceu uma sede em Piquiá da Conquista.
Ela conta que tudo começou com um convite para que elas se unissem a um Clube de Mães em Açailândia, o que as inspirou a criar algo semelhante em Piquiá de Baixo.
“Nos encontros, discutíamos sobre questões femininas, saúde e os problemas do bairro, buscando soluções juntas. Embora nos últimos anos não tenhamos nos reunido tanto devido a outras demandas, acredito que, com todos de volta no reassentamento e uma nova sede, o espírito do Clube de Mães ressurgirá em Piquiá da Conquista”, pontuou dona Tida.
Em 2019, a comunicadora e educadora popular Sebastiana Costa criou o grupo Mulheres Saudáveis com o objetivo de levar atividades físicas e bem-estar às mulheres da comunidade Piquiá de Baixo, em Açailândia, Maranhão. Ela explicou que, antes da pandemia, praticava crossfit com um grupo de amigas há cerca de cinco anos. No entanto, com a crise sanitária, as atividades foram interrompidas por quase um ano.
Sebastiana explicou que a ideia de criar o grupo surgiu porque ela enfrentava dificuldades para acessar uma academia, que era distante e onde não conseguia ir por conta das responsabilidades com os filhos.
“Eu queria frequentar a academia, mas não tinha como, principalmente porque tenho crianças e minha mãe não podia cuidar delas para eu ir”, destacou.
Com isso, Sebastiana, junto com uma amiga, decidiu improvisar. Elas usaram um pneu sujo de lama que encontraram na rua para começar os treinos. “Pegamos o pneu e começamos a usar para treinar. Aos poucos, outras mulheres se juntaram a nós”, disse ela. O grupo foi crescendo e, atualmente, conta com mais de 15 mulheres praticando crossfit juntas.
Ela completou: “Ainda estou com o grupo, sempre motivando as mulheres a cuidarem da saúde, mesmo com a correria do dia a dia.”
O grupo “Mulheres Artesãs de Pequiá de Baixo”, estabelecido em 2016, continua com sua rotina de trabalho colaborativo, mantendo uma produção artesanal consistente, mesmo diante das dificuldades. Apesar das mudanças, como o deslocamento para o novo bairro e as questões de energia que ainda impactam algumas participantes, o grupo nunca parou de trabalhar. As mulheres, unidas pela solidariedade, seguem com o crochê como sua principal atividade, mas também se dedicam à produção de filtros de sonhos, capas de almofadas, tapetes, e outros itens artesanais.
Apesar da mudança e das dificuldades, elas nunca interromperam as atividades. Estão sempre recebendo encomendas, comprando material e, quando possível, entregam o que produzem.
“A gente tem se revezado e apoiado umas às outras. O trabalho continua com a mesma energia, com cada uma contribuindo conforme a sua possibilidade. Embora a dona Loura ainda esteja sem energia, temos nos organizado para não interromper o andamento do grupo”, explica Ana Maria Sousa.
O novo bairro tem trazido algumas mudanças logísticas para o grupo. As reuniões ainda não aconteceram, pois a nova casa de algumas integrantes precisa de ajustes de infraestrutura, como a chegada da energia elétrica.
Isso tem atrasado o reencontro físico do grupo, mas, como Ana destaca, a solidariedade e o apoio mútuo continuam sendo fundamentais para a continuidade do trabalho.
“O grupo nunca parou, mesmo sem nos reunirmos fisicamente. A gente se ajuda e continua produzindo. A mudança não é fácil, mas a união da gente é forte”, considera Ana Maria Sousa.
Em Piquiá de Baixo, a presença religiosa é marcante, especialmente com a participação ativa das igrejas católica e evangélicas. Embora as datas exatas de sua fundação não tenham sido encontradas, essas instituições desempenham um papel crucial na vida da comunidade, promovendo a união e o trabalho conjunto entre seus membros.
Dona Tida relembra com carinho os dias em que as mulheres se uniam para construir tanto o salão do Clube de Mães quanto a igreja.
“Foi um serviço só de mulher. Nós chegamos a pegar enxada para arrancar os tocos de lá. Era bom, a gente fazia aquelas farofa e suco e levava pra lá. Era animado e nesse tempo eu ainda era nova e achava bom trabalhar assim”, recorda com entusiasmo.
Antônia Flávia da Silva destaca a forte união entre as três igrejas, sendo uma católica e duas evangélicas. Dos bairros que ela conhece, acredita que Piquiá tem uma ação muito forte, porque as congregações religiosas primam pela união. “As pessoas, tanto da Assembleia, quanto da Madureira e da igreja católica, minha comunidade São José, são muito unidas. Seja para fazer uma assembleia ou para apoiar em algum evento, sempre tem essa força de uma ou de outra.”
O pastor Leonardo Valtamiro, da Assembleia de Deus, ressalta o espírito de colaboração entre as igrejas e a comunidade.
“Eu cedo a igreja para as reuniões de Piquiá com toda a estrutura, som e tudo para as reuniões daqui. Eu faço as orações de abertura e geralmente já tive reuniões na igreja católica e os padres e toda a comunidade me chamam e faço a oração.”
No coração de Pequiá, o grupo “Horta para Cozinha”floresce como um símbolo de união e oportunidade. Sua sede, também conhecida como “Casa Amarela”, é muito mais do que um local de produção de salgados e sucos; é o epicentro de uma iniciativa comunitária transformadora.
O grupo desenvolve atividades culinárias em suas instalações, sob a liderança inspiradora de mulheres que transformam ingredientes simples em oportunidades de crescimento pessoal e coletivo. Além disso, a equipe implementou referências estéticas e simbólicas no espaço físico, incluindo uma identidade visual marcante, uniformes personalizados.
Simone Costa Ferreira, uma das líderes do projeto, compartilha que, inicialmente, foi solicitado um curso de doces e salgados. Após a aprovação, o grupo adquiriu os equipamentos necessários para a cozinha e começou a produzir lanches, doces e salgados.
“Além de fornecer lanches para as crianças e jovens da comunidade durante os eventos e formações do projeto, também aceitamos encomendas externas, divulgando nossos produtos em eventos como a JNT em Pequiá”, explica Simone.
No “Canto do Saber”, localizado na comunidade, as crianças e adolescentes têm acesso a um ambiente propício para estudos e diversas atividades. É conhecido como o Canto da Leitura, ou Canto do Saber José Mauro, onde educadoras populares ministram aulas. Sebastiana Costa destaca a variedade de atividades realizadas no local, desde rodas de conversa até reuniões e oficinas. “Funciona como uma espécie de escola complementar, oferecendo aulas de reforço e servindo como espaço de preparação para eventos comunitários. É simbolicamente conhecido como casa colorida.”
O espaço foi nomeado como “Canto do Saber José Mauro”, em homenagem a um jovem estudante de pedagogia que teve sua vida interrompida tragicamente. Ele estava próximo de concluir sua formação quando foi vítima de um assalto e acabou falecendo. Essa homenagem perpetua sua memória e sua ligação com a educação.
Em uma iniciativa marcante na comunidade de Pequiá, surge o Coletivo de Vigilância Popular em Saúde e Ambiente, uma homenagem ao legado de Edvar Dantas Cardeal, um dos moradores mais atuantes do bairro. Edvar lutou incansavelmente pela qualidade do ar na região, enfrentando problemas pulmonares decorrentes da poluição local até o seu falecimento.
“O Coletivo de Vigilância Popular em Saúde e Ambiente se intitula em memória de Edvar Dantas Cardeal, um dos lutadores daqui do bairro que carregou essa luta por muito tempo. Em decorrência de problemas pulmonares adquiridos devido à poluição aqui no bairro, acabou falecendo”, detalha João Paulo Alves, membro do coletivo.
Segundo Alves, a ideia central é resgatar a vida e o compromisso de Edvar com a comunidade, mantendo viva sua memória e seu legado. Desde 2016, o coletivo vem desenvolvendo ações concretas para conscientizar a população sobre a qualidade do ar em Pequiá.
“Uma das iniciativas mais marcantes é a produção de materiais informativos, como folders e folhetos, que apresentam dados sobre a qualidade do ar na região, com base em relatórios anuais. Em 2020, foi lançado o folheto ‘O Ar Que Respiro’, reforçando a importância contínua do projeto”, explica Alves.
Em Pequiá, um coletivo de comunicação tem sido a voz de sua comunidade, trazendo informação e engajamento para os moradores. O grupo começou com o incentivo a duas moradoras, expandindo-se gradualmente para incluir três, e agora conta com a participação ativa de cerca de dez jovens locais.
De acordo com Sebastiana, uma das líderes do coletivo, o envolvimento começou com um convite durante uma reunião de fortalecimento comunitário. “Recebi o convite para participar do Coletivo de Comunicação vindo da Idayane Ferreira, que era a coordenadora de um projeto aqui na comunidade”, relata, referindo-se a uma jornalista responsável pelo Portal Assobiar.
A iniciativa consistia em gravar um áudio para homenagear o Dia das Mães, mas logo evoluiu para algo maior.
“Foi a partir daí que comecei a participar das atividades de comunicação no bairro. Hoje, me sinto muito feliz por estar à frente desse grupo, ajudando os jovens a se socializarem mais entre si e a conhecerem mais a história da comunidade”, lembra Sebastiana.
O coletivo, agora composto por aproximadamente 10 pessoas, abrange uma variedade de idades, desde adolescentes de 14 anos até jovens adultos acima de 30 anos. “Somos uma equipe, e um precisa do outro para que o coletivo funcione”, destaca Sebastiana. O grupo produz boletins mensais e semestrais, abordando uma ampla gama de temas, desde problemas de transporte coletivo até confraternizações da comunidade.
“Colocamos todas as problemáticas, mas também os pontos positivos. Queremos falar sobre o nosso bairro, mostrar sua diversidade e desafios”, explica Sebastiana.
A comunidade de Piquiá de Baixo, em Açailândia (MA), é um símbolo de resistência frente aos impactos da mineração e da siderurgia. Nessa luta, os Missionários Combonianos têm sido um pilar fundamental. Presentes na região há décadas, eles atuam em defesa dos direitos humanos, da justiça socioambiental e da dignidade das famílias que sofrem com a poluição e os deslocamentos causados por grandes empresas. Os Combonianos continuam acompanhando o processo de reassentamento das famílias para o novo bairro, Piquiá da Conquista, fruto de anos de mobilização.
Além do apoio psicossocial e pastoral, os combonianos atuam em parceria com a Justiça nos Trilhos, levando as demandas da comunidade para fóruns nacionais e internacionais. Eles pressionam empresas como a Vale S.A. e governos a assumirem suas responsabilidades, enquanto fortalecem a organização local.
Como afirmou o padre Dário Bossi, “a luta das comunidades é a luta de todos nós por um mundo mais justo e sustentável”.
A Justiça nos Trilhos, coalizão que inclui os Missionários Combonianos, recebeu em 2018 o Prêmio Direitos Humanos e Empresas, em Genebra, na Suíça. O reconhecimento veio da Fundação homônima, que destacou o trabalho “rigoroso e consciente” da organização em circunstâncias desafiadoras. A Justiça nos Trilhos atua em defesa das comunidades afetadas pela Estrada de Ferro Carajás, especialmente na região de Açailândia, onde acompanha os impactos da cadeia de mineração e siderurgia.
Em 2023, a organização segue articulando apoios e parcerias em nível estadual, nacional e internacional. Sua atuação inclui desde o monitoramento dos impactos socioambientais até a organização de caravanas e campanhas de denúncia.