O destino do terreno atualmente ocupado pelos moradores de Piquiá de Baixo, uma comunidade que vem enfrentando graves questões ambientais e de saúde, continua sem uma definição concreta. Localizada em uma área considerada inapropriada para habitação, devido à poluição e à insalubridade do local, a comunidade expressa uma forte preocupação quanto ao futuro da área.
Moradores e líderes locais defendem a transformação do terreno em uma zona de preservação ambiental, mantendo viva a história e a cultura da comunidade. Para muitos, essa mudança representaria uma oportunidade de ressignificar o espaço, garantindo acesso à natureza e ao lazer para as futuras gerações.
A luta pela preservação
Dona Isabel Sousa, ex-moradora de Piquiá de Baixo, que recentemente se mudou para o novo bairro Piquiá da Conquista, defende a criação de um parque acessível a todos:
“A transformação desses terrenos em um parque seria benéfica para todos, desde que seja um espaço público de lazer, acessível e sem cobrança de ingresso. Para mim, é fundamental que nossa comunidade continue desfrutando desse local tão importante em nossas vidas.”
Para Alessandra, a preservação do espaço não só resgata o passado, mas também reforça a identidade da comunidade:
“É bom porque é um lugar onde convivemos. As memórias que temos aqui são muito valiosas. Mesmo com as dificuldades, as coisas boas que vivemos são o que importam.”
Para ela, a preservação do espaço não só resgata o passado, mas também reforça a identidade da comunidade.
“É bom porque é uma coisa onde a gente conviveu. As memórias que temos aqui são muito valiosas. Mesmo com as dificuldades, as coisas boas que vivemos aqui são o que importa,” disse Alessandra Corrêa.
Medos e expectativas: o receio da demolição
Apesar da esperança de preservação, há um temor crescente entre os moradores de que a demolição comece antes que todos sejam reassentados e as memórias da comunidade sejam oficialmente preservadas. “Temos medo da demolição, mas acreditamos que ainda há tempo”, comentou Alessandra.
Ela expressou preocupação com a possível destruição de partes importantes do terreno, como igrejas, praças e outros espaços históricos, o que representaria uma perda irreparável para a identidade local.
Sebastiana Costa, integrante do grupo ‘Mulheres Saudáveis’, compartilhou suas preocupações sobre o futuro do terreno. Ela mencionou um projeto de preservação ambiental apresentado por um arquiteto ligado à comunidade, que visa manter espaços históricos e culturais, como igrejas, a quadra de esportes e algumas casas antigas.
“O projeto busca criar um setor de preservação ambiental, com trilhas e a manutenção de espaços como o clube de mães, a pracinha e algumas casas antigas, como a casa da Dona Isabel”, explicou Sebastiana.
Ela também relatou o medo compartilhado por muitas famílias em relação à possível perda de suas casas, que possuem forte valor emocional e histórico. “A casa do meu pai tem mais de 30 anos, e não queremos perder essa conexão com o passado”, afirmou..
O futuro e a preservação da memória
Além da preservação ambiental, a comunidade espera que o processo de transformação do terreno respeite os marcos históricos e culturais que fazem parte de suas vidas.
“Esperamos que deixem locais como igrejas, praças e espaços importantes, para que possamos voltar e ver, quem sabe, um museu ou um espaço que reforce nossa memória”, concluiu Alessandra, ressaltando o desejo de que a história de Piquiá de Baixo seja reconhecida e valorizada para as futuras gerações.
As discussões iniciais estão sendo conduzidas entre a Associação Comunitária dos Moradores de Piquiá (ACMP), a Justiça nos Trilhos, o Ministério Público do Maranhão (MPMA), a prefeitura municipal e universidades regionais.
Segundo João Paulo Alves, gestor ambiental e educador popular na Justiça nos Trilhos, a proposta inclui demolir as casas antigas, preservando algumas estruturas históricas, como a escola Almirante Barroso e o posto de saúde.
“Os principais desafios incluem a limpeza da área, a revisão do plano diretor da cidade, que não atende às demandas atuais, e a despoluição ambiental. Também é necessário alterar o status de Piquiá, atualmente classificada como área industrial, o que inviabiliza a criação do parque. Essa discussão ainda será longa”, alerta João Paulo.
Outro ponto crítico é a poluição contínua das siderúrgicas na região. “Não adianta criar um parque ambiental enquanto as empresas continuam poluindo”, reforçou.
Impactos ambientais e urbanísticos
João Paulo destacou a importância da participação comunitária e da sustentabilidade no projeto:
“A transformação do terreno em um parque ambiental é essencial para a recuperação da área, que sofreu impactos ambientais significativos por mais de 30 anos. A simples remoção das famílias não é suficiente para restaurar o ecossistema. É necessário remover os resíduos de construção e iniciar um processo de reflorestamento com espécies nativas. Além de criar um espaço saudável para a comunidade, o parque contribuirá para a melhoria da qualidade ambiental, em especial das águas do Córrego Piquiá.”
A comunidade tem papel central na proposta de criação do parque. Em 2021, um censo comunitário mostrou que mais de 80% das famílias apontaram o parque como o caminho ideal para a recuperação do local.
“Elas querem voltar, mas de uma forma diferente: com um espaço que simbolize resistência, memória e um futuro sustentável. Para isso se tornar realidade, é preciso continuar cobrando das autoridades públicas medidas mais claras e das empresas a adoção de medidas para a redução da poluição na região”, explicou João Paulo.
Plano de envolvimento comunitário
Ainda não há um plano formal consolidado, mas existem propostas em discussão que visam o envolvimento da comunidade na gestão do futuro parque.
“Penso que podemos seguir o modelo de cogestão, onde a comunidade possa colaborar na manutenção do espaço, promover atividades de educação ambiental, lazer e conscientização ecológica. Ainda é preciso discutir melhor com toda a comunidade o que precisa ser feito nesse espaço”, afirmou João Paulo.
Para a presidenta da associação de moradores do bairro, Dona Francisca Sousa, a criação do parque beneficiará tanto os antigos moradores, que terão um espaço para recordar sua história, quanto o meio ambiente, com a proteção da fauna e da flora local.
“A área de Piquiá de Baixo será transformada em um parque ambiental, beneficiando com boas lembranças e pesquisas científicas. Protegerá os animais, as plantas e a natureza, beneficiando todos, além de preservar a memória do local”, afirmou.
Próximos passos
Segundo a Justiça nos Trilhos, em agosto de 2024, representantes da comunidade, MPMA, universidades e empresas, como Aço Verde do Brasil e Vale S.A., visitaram Piquiá de Baixo e Piquiá da Conquista para discutir o projeto do parque ambiental e as necessidades da população.
“Atualmente, a questão está sendo conduzida pelo MPMA. As universidades envolvidas são a FAVALE (Faculdade Vale do Aço), o professor Rui Saraiva do curso de arquitetura e urbanismo, que construiu o projeto com alguns alunos, e a UEMASUL (Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão). O professor Rui Saraiva elaborou o projeto e só vai apresentá-lo na próxima reunião com o MP, ainda sem data definida”, disse João Paulo.
“A luta pela dignidade e pela preservação da história da comunidade deve continuar.” Finalizou Alessandra Correia moradora do bairro.
Por enquanto, a construção do parque ambiental em Piquiá de Baixo está paralisada, aguardando a realização dessa reunião com o MP para seguir adiante.